Vamos falar de trauma? Aspectos terapêuticos do psicodrama

Vamos falar de trauma? Aspectos terapêuticos do psicodrama

Depois de um trauma a pessoa não é mais a mesma: identidade, afetos, reações fisiológicas, a maneira de ver a vida e suas interações com outras pessoas sofrem transformações; não há mais segurança, previsibilidade e confiança. O medo, a impotência e a parda de controle, arrasadores, se transformam em uma experiência de aprendizagem permanente, que ela não consegue esquecer.

Segundo Kellermann (2010, p. 23), o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é um termo diagnóstico utilizado para descrever tais estados de corpo e mente. Consiste, caracteristicamente, em ansiedade e depressão decorrentes de um fato traumático. A pessoa revive continuamente o trauma (em vívidas lembranças e pesadelos), diminui seu interesse pelo mundo externo e sofre de vários sintomas mais ou menos físicos, tais como ficar hiper alerta e ter perturbações do sono. Algumas pessoas conseguem elaborar a perda e reajustar-se à nova realidade. Outras ficam paralisadas num estado de desorganização e desespero, pois não conseguem integrar adequadamente as vivências dolorosas e podem desenvolver vários sinais de transtorno mental, inclusive TEPT (Wilson, Smith e Johnson, 1985).

Uma das abordagens clássicas, desenvolvidas por Jacob Levy e Zerka Moreno, é o psicodrama. É baseado nos princípios tradicionais da catarse e da reencenação, assim como nos elementos dramatúrgicos do ritual e da narrativa. O psicodrama busca proporcionar uma oportunidade de relembrar, repetir e elaborar os fatos doloroso do passado, como explica Kellermann (2010, p. 26).

Os aspectos terapêuticos do psicodrama com TEPT são muito semelhantes aos do psicodrama geral, como descrito por Kellermann (1992): 1. As experiências reprimidas do fato traumático são reencenadas em um meio seguro. 2. Em segundo lugar, há um reprocessamento cognitivo do fato, para proporcionar uma nova compreensão do que aconteceu e elaborar os conflitos inconscientes que possam estar a ele conectados. 3. Possibilita-se uma catarse emocional para drenar os resíduos emocionais do trauma. 4. A introdução de um elemento imaginário de ‘’realidade suplementar’’ amplia a visão de mundo do protagonista. 5. Focalizam-se a maneira como o trauma afeta as relações interpessoais e os recursos para prevenir o isolamento. 6. Os rituais terapêuticos são realizados para transformar o fato em uma experiência de vida significativa. 7. Finalmente, se o trauma for uma experiência grupal coletiva, há um ato coletivo de sociodrama da crise para facilitar o reajustamento ao novo estado de equilíbrio social.

Para Kellermann (2010, p 30), a catarse é a experiencia de alívio que ocorre quando um estado duradouro de mobilização interior é liberado por intermédio da expressão afetiva. Para traumatizados com muitas emoções contidas, que foram se acumulando feito vapor numa panela de pressão, essa oportunidade de ‘’desabafar’’ é em geral saneadora. É essencial que eles sejam, em primeiro lugar, apoiados em seu estado pessoal de equilíbrio emocional, para que sejam ajudados a reintegrar emocionalmente e processar cognitivamente (reconhecer) sua perda avassaladora, facilitando o aumento da espontaneidade e, consequentemente, aliviando o impacto psicológico do trauma.

Usamos cookies que armazenam informações suas com o objetivo de melhorar sua experiência com nossos serviços, de acordo com nossos Termos de Uso.