A apresentação do complexo de Édipo em Freud

Olá, eu me chamo Complexo de Édipo,

Meu nome é baseado em uma peça do complexo de Édipo, baseado em uma releitura do mito de Sófocles, a peça é bem legal, caso queira ler.

Eu surjo a partir do assassinato de um pai primitivo, incestuoso e castrador, fundindo a partir deste a cultura, cedendo lugar a um pai edipiano, que se curva à lei do desejo e que de brinde leva a estrutura neurótica caso me aceite, a estrutura psicótica, caso não me reconheça e por fim uma estrutura perversa, caso se ache superior a mim e não se submeta.

Caso tenha interesse em saber mais sobre o pai primitivo, sugiro a leitura de Totem e Tabu, volume XIII, de meu “descobridor”, Dr. Freud.

Desde a inauguração da civilização, eu estou presente na experiência de todas as crianças, não importando de pais tradicionais, homossexuais, recompostos, monoparentais ou órfãs.

Eu me manifesto nos adultos neuróticos, através das mais diversas dificuldades nas relações amorosas, na impotência sexual, compulsão sexual, ciúmes, nas instabilidades emocionais, nas dificuldades com as regras, e em tantos outros sintomas, pois por “mais bem sucedida passagem por mim”, o conflito passado jamais é superado completamente.

Como me manifesto? Como estou presente em todas as crianças?

Pois bem, a história é bem longa, se quiser pegar um café ou chá nesta leitura, fique à vontade...

Comecemos pelo começo, os cuidados, carícias e gestos de ternura com o bebê dirigidas geralmente pela mãe, mas que pode ser substituída por qualquer cuidador de qualquer sexo, causam satisfação e prazer no bebê, independente se menino ou menina. O pai, é considerado um estorvo, que o bebê quer afastar, esse pai pode ser representado por qualquer sexo, sendo pai ou não, pode ser um tio, a escola, o simples interesse da mãe que não seja esse bebê. E, talvez você se pergunte: _Porquê um estorvo? _Porquê esse bebê quer afastar esse pai? Simples, porque esse pai afasta sua mãe do bebê nem que seja por pouco tempo.

Chega à época e não se demora, por volta dos três, quatro anos de idade, as crianças voltam a sua atenção aos seus genitais e descobrem que uns tem pênis e outros não. É importante ressaltar que quem me batizou, Dr. Freud, batiza essa fase de descoberta e atenção às genitálias de fase fálica, você pode dar uma lida nos três ensaios da teoria da sexualidade, no volume VII para entender melhor desta e das fases anteriores. A moça que está me descrevendo está a fantasiar a apresentação de conceitos da galera constituintes e presentes na mente pela psicanálise e, no mesmo formato em que me apresenta, em algum momento apresentará essa fase também, se quiser no site dela tem os textos anteriores (www.evelianepsicanalise.com.br).

Retomemos minha apresentação. Nesta fase, as crianças não entendem direito a diferença entre os sexos, gêneros, coito, nada disso é domínio de saber desses pequenos seres, mas estes tem curiosidades, e acabam por preencher as lacunas que não são de domínio de seu saber com a famosa realidade psíquica, que trata de uma narrativa que eles contam para eles mesmos para dar conta de realidades que não compreendem em sua completude, que irão envolver suas emoções, seus desejos e irão dentro dessa perspectivas se apresentar em formato de fantasia. Porque o Sr. Complexo de Édipo está falando tudo isso? Bom, porque todo esse processo se dá dentro de uma realidade psíquica, uma fantasia, presente no inconsciente. O pênis acaba por estar atrelado à uma fantasia de poder, de onipotência, de força, que tanto os meninos como as meninas possuem.

Neste período, a criança erotiza sua genitália, pênis e clitóris, o clitóris para a menina equivale à seu pênis que a partir de agora chamaremos de falo para remeter ao que ele representa, uma fantasia. A criançada mexe bastante em seus órgãos sexuais, o menino recebe uma ameaça de castração em tom de brincadeira: “Olha, eu vou cortar isso fora”, a menina recebe mais uma orientação educativa. A criança deseja essa mãe toda para si, quer toda a atenção, carícias, ternuras e até mordidas, esse desejo é ativo e não passivo.

Até aqui foi possível falar de como vou passar pelo menino e menina, contudo, a partir de agora, vou mostrar como passo pelo menino e depois pela menina, pois agora a configuração se dará de modo diferente.

Bom, aqui já houve na cabecinha dos pequenos seres uma divisão, quem tem pênis-Falo e quem não tem porque viram um outro pequeno ou adulto do sexo oposto nu e agora sua atenção está nestes órgãos.

Diante de tal realidade, o menino acredita que as outras pessoas (que não tem pênis) são castrados e sofre de angustia de castração, teme ser castrado em forma de punição por mexer em seu pênis e em forma de ameaça por desejar sua mãe e tomar o lugar de seu pai. Agora a brincadeira de ser o chefe da família na ausência de seu pai é ameaçada por uma possível castração, tendo em vista que o pequeno já vê em seu pai uma força superior à sua. Agora o pequeno deve fazer uma grande escolha, manter seus desejos de incesto e parricídio ou seu pênis-falo (sua força, virilidade e onipotência), adivinha só que ele escolhe? Sua mãe? Não, seu precioso falo. Deixo como herança neste pequeno o superego desse pai, e este passa a voltar sua atenção para o aprendizado, para o mundo, pois trancou em um porão à sete chaves, seus desejos, suas fantasias e angustias. Eu fico lá guardadinho, em latência, ressurjo na adolescência, fase genital, no entanto, o superego que de anjo não tem nada e é bem severo, irá se opor ferozmente a isso e se manifestará nos mais diversos conflitos naturais à esta idade. Portanto papai e mamãe que me leem, lembre-se disso, lembrem-se das dificuldades emocionais que passaram quando seus filhos estiverem nesta fase.

Bom aqui deu tudo certo, temos uma estrutura neurótica, repleta de conflitos e sentimentos ambivalentes, preço que pagamos pela civilização, afinal, tudo tem um preço. As fantasias de onipotência fálica e angustias de castração marcam em intensidades diferentes em cada indivíduo, à depender de suas fixações e de como passou pelo Édipo em seu contexto familiar e de acordo com o indivíduo, no entanto, a busca pelo poder, seus carros altos, monumentos e prédios grandes, a subjugação àquelas que não tem pênis, marcam presença na sociedade.

Falemos das meninas, enquanto o complexo de castração marca o apogeu dos meninos por mim “Complexo de Édipo”, as meninas, através deste, tem a possibilidade de entrar em mim. Pois enquanto os meninos já me vivenciavam, as meninas estavam em uma pré-fase, antes de mim, chama-se fase pré-edipiana, que só as meninas passam.

Se acalme, vou explicar.

Bom, a menina quando percebe a divisão dos quem tem e quem não tem pênis-Falo, passa um tempo a achar que seu clitóris irá crescer e se transformar em um falo. Neste momento já se afasta da mãe e nutre uma grande raiva por esta não ter dado um falo, ou seja, a ter trazido no mundo sendo uma mulher. No entanto, chega o momento em que percebe que este dia não irá chegar, neste momento desenvolve uma inveja do pênis, esta marcará sua personalidade em diferentes dimensões na mulher adulta. Pois bem, neste momento três coisas podem acontecer, são elas:

Abandona toda sua sexualidade, levando-a à uma inibição sexual, rigidez na vida adulta.

Se nega a aceitar que não vai rolar de não ter o falo, e desenvolve um complexo de masculinidade (como se o complexo de mim não fosse suficiente), querendo ser um homem.

A terceira, saída mais feminina, é entrar em mim (aceita que dói menos), e como? Depois da aceitação de que não vai ter um pênis-Falo, que seu clitóris não vai crescer, começa a imitar a mãe, vestir suas roupas, usar sua maquiagem, para quê? Para atrair seu pai, seu objeto de desejo não é mais sua mãe que agora é sua rival, mas sim seu pai, e sabe porquê? Porque vê neste pai a possibilidade de ter seu falo, que seria um bebê de seu amado pai. Com o tempo a menina vai se afastando do pai, e no futuro, irá desejar ter seu falo, um bebê de outro homem, sim o falo da mulher são os filhos. Também deixo como herança o superego do pai para a menina, no entanto diferente do homem, não tão inexorável, tão impessoal e tão independente da emoção como nos homens.

Bom, basicamente, este sou eu, o Complexo de Édipo em Freud, desejos, fantasias, angustias, todas latentes no inconsciente, mas presente na civilização, na identidade, na neurose, no superego, no sintoma e na transferência em setting analítico.

Bibliografia:

Édipo. O complexo do qual nenhuma criança escapa. J.-D. Nasio

Totem e Tabu/Vol. XIII"

O futuro de uma ilusão/Vol. XXI

Moisés e o Monoteísmo, Vol. XXIII

Três ensaios da teoria da sexualidade/Vol. VII

Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância/Vol. XI

A dissolução do Complexo de Édipo/Vol. XIX)

O presente texto trata-se do complexo de Édipo em Freud, tem como objetivo a “brincadeira” de apresentar esse conceito como se o Complexo de Édipo estivesse se apresentando para você, meio que em formato de crônica.

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