Gaslighting: O que é, como se manifesta e quais suas consequências

O termo Gaslighting provem do filme “Gaslight”, em português “à meia luz”, de 1994, em que é explicado de acordo com as descrições acerca do termo e sua originalidade no artigo “Turning up the lights on Gaslighting”, de Kate Abramson, que explica o drama em que o personagem Gregory deliberadamente tenta fazer com que sua esposa Paula perca sua sanidade, através de manipulação. Manipulando-a, seus amigos, e o ambiente físico ao seu redor, Gregory almeja hospitalizar Paula por instabilidade mental para que ele possa ter acesso às suas joias. Os espectadores do filme testemunham o personagem seu marido engajado em torná-la louca através de suas atitudes falsas, manipulação atrás de manipulação, ao longo de meses.

O título do filme é derivado de uma manobra manipulativa especifica de Gregory, em que ele regularmente procura pelas joias de Paula no sótão da casa, e quanto ele faz isso seus movimentos contra a luz causam um efeito de oscilação de sombras escurecidas em outros cômodos da casa. Porém, quando Paula percebe a mudança das luzes e sombras na casa e fala a respeito, Gregory insistentemente nega essas oscilações, incessantemente afirmando que nada está acontecendo à medida que ela repetidamente afirma perceber a luz oscilando.

Este momento serve como um paradigma ápice para o relato de Kate Abramson (2014, p.02), segundo o qual o Gaslighting visa “induzir em alguém” a sensação de que as suas reações, percepções, memórias e / ou crenças não estão apenas equivocadas, mas totalmente sem fundamento. Segundo Abramson (2014, p.10), o Gaslighting é uma forma de manipulação, dentre várias outras. Para a autora, a manipulação é frequentemente entendida como uma forma de influenciar outra pessoa que é pelo menos um tanto quanto errada, e que ao menos pode ser de alguma forma distinta da coerção ou do engano que descreve como dois tipos paradigmáticos de transgressão interpessoal. Abramson sugere ainda que a estratégia primária do Gaslight não é, ou não parece ser, ao menos ao nível perceptível, epistêmica. Em vez disso, ela argumenta, que o Gaslighter (quem pratica gaslight) se apresenta como uma fonte de autoridade normativa.

O Gaslighter assume a pretensão de possuir um testemunho sincero, e age do ponto de partida que tem autoridade para exigir que os outros “vejam as coisas do seu jeito”. Em uma interpretação padrão, Gaslighting envolve manipular outra pessoa para questionar suas percepções - incluindo percepções aparentemente óbvias. Às vezes, a realidade distorcida pode até levar as mulheres a questionar sua própria sanidade por meio de desse processo de acordo com Kate Abramson, para ela uma mulher influenciada por meio de Gaslighting pode perder seu senso de identidade a ponto de depressão e sentimentos mórbidos similares ao luto podem se apropriar da pessoa (Abramson 2014). O estudo acerca de Gaslighting é muito amplo na América do Norte, profundamente debatido na psicologia e na filosofia, e atualmente já apresenta diversas leituras e aprofundamentos. Num estudo acerca de ética, o tópico Gaslighting aparece sendo discutido como uma categoria dentre diferentes formas de manipulação, como cita o artigo da universidade de Standford “The Ethics of Manipulation”.

O Gaslighting aparece nesse artigo definido com uma das “técnicas de manipulação” descritas pelo autor Robert Noggle como uma tática que faz um determinado individuo duvidar do próprio julgamento para que assim ela se apoie na opinião de uma outra pessoa que “detém a razão” acima de sua própria percepção dos fatos (NOGGLE, 2020, p.02). Apesar de sua classificação como uma forma de manipulação, o Gaslighting há discussões acerca do seu caráter, dividido entre “gaslighting epistêmico” e “gaslighting manipulativo”. O trabalho ao qual este texto foi retirado visa abordar o gaslighting manipulativo no tema por conta de seus desdobramentos e atrelamentos com práticas de misoginia e sexismo, que segundo a autora Cynthia Stark da universidade de Oxford, os estudos epistemológicos sobre o tema não consegue capturar as consequências e atravessamentos nas mulheres da maneira que o gaslighting manipulativo alcança.

Segundo Stark (2019), a noção de Gaslighting manipulativo investiga a intencionalidade por trás das atitudes masculinas que configuram essa manipulação, além dos danos causados a elas em relação, por exemplo, a negação de seu testemunho acerca do machismo e misoginia. A autora ainda evidencia as diferenças entre Gaslighting e discordâncias (razoáveis), segundo Stark o Gaslighting de forma manipulativa “é um método de encenar misoginia, e muitas vezes é um fenômeno coletivo, e como coletivo, pode ser qualificado como um modo de opressão psicológica” (2019, p.01). A autora clama em seu artigo que a aproximação de gaslighing como um fenômeno de manipulação sistêmica captura um fenômeno social e não apenas individual, como pode ocorrer com a visão clássica do termo.

O fenômeno apresenta-se como uma forma sistemática de negação do testemunho das mulheres acerca de danos causados, de forma a minar essas e outras mulheres, podendo explicar como o Gaslighting é um meio comum em que a misoginia é promulgada e como esse uso se classifica como um fenômeno coletivo. Stark discute que o Gaslighting atua como uma ferramenta de deslocamento dos fatos e de misoginia, agindo como parte estrutural da misoginia que pune mulheres que recusam em tolerar comportamentos masculinos hostis e danosos, em que essas mulheres são vistas como desafiando uma ideologia legitimadora que diz que tal retratação masculina é rara ou benigna (STARK, 2019, p. 09). Para Stark, os Gaslighters acusam as mulheres de “fabricarem” os danos sofridos e que elas não têm motivo algum para fazer isso, e que, na verdade, elas têm muitos motivos para não “criarem esta situação”.

A autora retrata ainda que os danos sofridos por Gaslighting tem decorrências psicológicas que necessitam de tratamento psicoterapêutico, e aponta um erro comum cometido por psicólogos que veem o Gaslighting apenas como prática de afetação individual provinda de relacionamentos interpessoais e não atribuídos a uma visão sistêmica social. Ela aponta que comumente as vítimas de Gaslighting manifestam distúrbios como depressão e outros transtornos associados a inseguranças e dúvidas constantes acerca de si e dos outros. A autora argumenta que esses, além de outros transtornos e afetações ocorrem não apenas em mulheres que estão em um relacionamento abusivo sofrendo Gaslighting mas também que as mesmas lesões psicológicas podem ser experienciadas por mulheres que vivem em uma cultura em que Gaslighting coletivo em mulheres é amplamente praticada e aceita (2019, p.09). Como uma forma de a manipulação, o Gaslighting misógino induz as mulheres a suprimir ou duvidar de seus julgamentos no domínio das relações de gênero.

Uma das formas que o Gaslighting misógino tem se manifestado e atuado de maneira muito eficaz, de acordo com a autora, é por meio da publicidade, por meio de uma figura pública, grupos públicos, agentes e manifestações publicitárias. Essa forma de atuação pública de gasligthing misógino tem sido eficaz principalmente em fazer com que as mulheres-público duvidem das informações e de suas opiniões acerca de coisas que atitudes machistas e abusivas contra mulheres (STARK, 2019, p.19).

Atualmente pode-se dizer que o gaslighting pode afetar tanto homens quanto mulheres, e os danos são muito semelhantes. Porém, o foco deste trabalho foi realizar um recorte de gênero, já que a desigualdade de gênero foi um dos fatores de consolidação do termo em inglês originando sua conceituação e axial neste trabalho. A afetação sistêmica e politica do gaslighting com certeza segue os grupos de minoria política de maneira afoita, porém afeta a todos os indivíduos sociais de maneira sistêmica, principalmente devido sua constante prática pelo mercado capital e determinados grupos publicitários. Além disso, o machismo, o sexismo e a misoginia afetam tanto homens quanto, mulheres, também contribuindo para o adoecimento psíquico. 

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