Ter 50 anos, corpo de 25 e cabeça de 15... sqn

Há silêncio quando a questão é climatério-menopausa. É justo esse silêncio que me faz falar desse momento tão discriminado e reprodutivamente desconversado pelas próprias mulheres.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o climatério é definido como uma fase biológica da vida e não um processo patológico, que compreende a transição entre o período reprodutivo e o não reprodutivo da vida da mulher; sendo a menopausa um marco dessa fase, correspondendo ao último ciclo menstrual e somente reconhecido depois de passado 12 meses de sua ocorrência, acontecendo geralmente em torno dos 48 aos 50 anos de idade (BRASIL, 2008). Apesar do climatério-menopausa significar apenas o fim do período de fecundidade, essa fase de vida da mulher ainda é cercada de dificuldades nos relacionamentos interpessoais em decorrência do desconhecimento e preconceito, afetando as relações familiares, afetivas e as relações de trabalho. Muitas vezes prejudicando a qualidade de vida devido as alterações nos estados psíquicos. Vivência que agrava-se com a interferência das condição socioeconômica e dos aspectos culturais.

A desigualdade de gênero é fator impactante sobre as condições da saúde e sua qualidade de vida da mulher. Mais ainda quando essa entra na maturidade, coincidente com a fase climatério-menopausa. A construção do imaginário social sobre essa mulher, a deixa numa espécie de limbo social, fazendo com que até hoje a passagem pelo fim da idade reprodutiva seja motivo de constrangimento por parte da maioria das mulheres. Estas sentem a discriminação com relação a suposta perda da sensualidade e da libido. Fruto do machismo histórico sobre a mulher que sempre quis excrescer controle sobre seu corpo e sua sexualidade.

Enquanto assunto silenciado a grande maioria das mulheres apresentarão suas queixas físicas e psicológicas por ocasião do início da irregularidade do ciclo menstrual, caminhando para a sua suspensão. É quando nas mídias a mulher encontrará a temática sendo abordada como praticamente uma promessa de retorno à juventude. Não se descartando a indicação do consumo de medicamentos prometendo a eliminação de uma série de sinais desconfortáveis da menopausa, inclusive os psicológicos. Tais abordagens desconsideram seus sobressaltos existenciais intimamente relacionados com as representações sociais sobre seu corpo e sua sexualidade ao longo de sua história de vida. Desconsideram as diferenças entre mulheres negras, indígenas, brancas, ocidentais ou orientais. Desconsideram as diferenças de classe social. Desconsideram qualquer diversidade.

A mulher madura não se encaixa numa sociedade que privilegia uma imagem comercial da ‘la femme sempre jovem e.... magra’. Por isso é mais duramente desqualificada do que a mulher jovem. Esse padrão que nem mesmo as mais jovens conseguem atingir, fazendo com que tantas vezes se desencadeie transtornos de ordem psicológica como os transtornos alimentares anorexia, bulimia e vigorexia, impera na recorrência do apelo por um corpo construído por intervenções cirúrgicas, malhação e transformações prometidas pelos cosméticos e no excesso de divulgação biomédica da terapia de reposição hormonal (TRH).

Apesar disso, a passagem pelo climatério-menopausa apresenta manifestações físicas e psicológicas transitórias e permanentes. Sendo comum os sinais físicos como os fogachos (ondas de calor) noturnos e diurnos, sudorese e palpitações e os sintomas psicológicos difusos gerando alterações de humor, labilidade emocional, irritabilidade, lapsos ou diminuição de memória, cansaço, diminuição de libido, insônia, depressão, dificuldade de concentração, dificuldade de tomar decisões e ansiedade. Muitas mulheres não correlacionam essas manifestações com a síndrome do climatério. Nesta perspectiva, a medicalização da vida anda de braços dados com o desconhecimento e o silêncio fazendo com que a síndrome do climatério seja compreendida como o vago e o usual ‘estresse’. Do ponto de vista médico as inúmeras referências aos riscos de desencadeamento de doenças tais como diabetes, hipertensão e depressão por se encontrar numa idade de risco, pesa sobre a mulher a sensação da difícil escolha de entender se está doente ou estressada. E dá-lhe demanda por ansiolíticos e antidepressivos. A medicalização indiscriminada do climatério-menopausa é ‘uma prática da medicina, que só será modificada quando as mulheres tiverem consciência dos seus direitos, das possibilidades preventivas e terapêuticas e das implicações das distintas práticas médicas sobre o seu corpo’ (BRASIL, 2011, P. 42). É necessário avaliação criteriosa e individual para que o período climatério-menopausa não seja compreendido como um estado necessariamente patogênico. Isto é, com potencial de virar doença.

Do ponto de vista dos costumes sobre a mulher madura é lançada uma espécie de condenação por esta não mais estar sob controle a que a sociedade ainda quer ter sobre a mulher em idade reprodutiva (quando a perturba com perguntas e críticas com relação querer engravidar ou não, quanto ao modo como cria e educa seus filhos pequenos ou cobrando-lhe por escolher a carreia ou a família), há nessa mulher uma liberdade desconcertante dos modelos sobre qual é o lugar da Mulher.

Difícil é suportar o silêncio entre nós mulheres sobre mais essa fase na qual passamos e que demanda empatia. Sim, há alterações físicas e psicológicas constantes. Fato é que muitas abrem quadros de diabetes, hipertensão ou outras doenças. Outras desencadeiam desequilíbrio emocional ou comportamentos disfuncionais. Contudo, a escuta e o acolhimento a partir da desconstrução de imposições idealizadas sobre a mulher, certamente oferece um caminho mais suportável. Podendo ser uma via de ressignificação do sentido do amadurecimento biopsicossocial superando o deboche destinado a elas, tais como ‘barbe fez cinquenta anos, está gorda e barriguda’. Ou simplório ‘tia’, que é usado quando alguém acha que a mulher tem a idade de ser sua mãe. E como ‘mãe’, dessexualizada.

É importante que a mulher no climatério-menopausa rompa o silêncio. Fale de seus incômodos. Fale de sua sensação de vulnerabilidade. Compreenda que receber acolhimento nesse período é tão importante quanto na gravidez/puerpério (até porque os hormônios são os mesmos, só que agora ‘enlouquecidos’). Valide sua história de vida. Reconheça seu valor entre acertos e erros. Abuse do fato do já ter bastante experiência. Enfim, se imponha para além do consumir o suficiente de milagrosos suplementos alimentares ou cosméticos para se sentir plena. Viva a sexualidade, os desejos e a permanente construção da feminidade como potência transformadora.

Referências

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de Atenção à Mulher no Climatério/Menopausa, 2008. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoe/manualatencaomulherclimaterio.pdf>. Acesso em mar.2016.

_______. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher. Princípios e Diretrizes. 2011. Disponível em:<http://bvsms.saude.gov.brbvs/publicacoes/politicanacionalmulherprincipiosdiretrizes.pdf>. Acesso em mar.2016.

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