Suicídio e Pandemia

O mês de Setembro, que é o mês dedicado à prevenção do suicídio, especificamente no dia 10 está se encerrando e para reforçar a necessidade de pensar, conhecer e prevenir o suicídio, vamos refletir sobre o tema no contexto da pandemia.

Uma pandemia, nas proporções da COVID-19, promove instabilidade psíquica e pode desencadear reações que potencializem pensamentos e atos suicidas. São vários os impactos da pandemia na saúde mental. A nova rotina pode levar desde reações normais e esperadas de estresse agudo, até agravos mais profundos do sofrimento psíquico.

Em relação ao comportamento suicida, tem-se um continuum que vai desde autoagressões, tais como pensamentos, ameaças, tentativas até atos suicidas.

Estima-se que no Brasil 51% dos casos de suicídio acontecem dentro de casa e apenas um em cada três casos de tentativa de suicídio chegue aos serviços de saúde.

O principal fator de risco para o suicídio refere-se a tentativa anterior, que aumenta em cem vezes sua concretização, e o comportamento suicida pode ser agravado pelos seguintes fenômenos: a depressão, o transtorno de humor bipolar, a dependência de álcool e outras drogas psicoativas, a esquizofrenia e certos transtornos de personalidade.

O suicídio é um fenômeno complexo e com muitas causas associadas e um possível aumento de casos, em uma situação de pandemia, pode estar relacionado a diferentes fatores tais como: medo, isolamento, solidão, desesperança, acesso reduzido a suporte comunitário e religioso/espiritual, dificuldade de acesso ao tratamento em saúde mental, doenças e problemas de saúde, suicídios de familiares, conhecidos ou profissionais de saúde.

Desta forma, um importante risco para o suicídio é a presença de um transtorno mental, sendo que a pandemia agrava o sofrimento psíquico e o comportamento de risco, em consequência de possíveis estressores financeiros, aumento do uso de álcool e outras drogas, violência doméstica, isolamento, incertezas quanto ao futuro, medo de perder entes queridos, medo de transmitir a doença, medo de se contaminar, etc...Todos estes fatores agravam os problemas de saúde mental, em especial a depressão e ansiedade, aumentando o risco do comportamento suicida.

Há diferentes fatores de risco para cada ciclo de vida, mas os fatores gerais são:

• Irritação ou agitação excessiva da criança ou adolescente;

• Sentimento de tristeza, baixa autoestima e impotência;

• Tentativas prévias de suicídio;

• Relatos de violência psicológica (humilhação, agressões verbais), física, sexual ou negligência;

• Problemas de saúde mental da criança, do adolescente e/ou de seus familiares, especialmente a depressão e ansiedade;

• Uso de álcool e/ou outras drogas;

• Histórico familiar de suicídio;

• Ambiente familiar hostil;

• Falta de suporte social e sentimentos de isolamento social;

• Sofrimento e inquietações sobre a própria sexualidade;

• Interesse por conteúdos de comportamento suicida ou autolesão em redes sociais virtuais.

No adulto, a prevalência de casos notificados de lesão autoprovocada, se encontram na faixa etária entre os 20 e 49 anos, cujos fatores de risco se referem ao medo da infecção própria ou de entes queridos e sendo a parcela geralmente responsável pela renda familiar, podem se sentir pressionados pelas tendências de desemprego, a manterem suas atividades de trabalho, com rompimento do isolamento social, colocando-se assim em situação de risco para a infecção.

Diante desta situação é necessário observar mudanças de comportamento que apresentem sinais de alerta, além dos já mencionados:

• Isolamento afetivo e sentimento de solidão;

• Sentimento de desamparo e desesperança;

• Autodesvalorização;

• Aquisição de meios para morrer de suicídio;

• Crise existencial;

• Exposições frequentes a situações de risco;

• Problemas de relacionamentos

• Antecedentes de suicídio na família

Para estes casos, é muito importante a intervenção precoce, que pode se dar pela interação online, que é uma ferramenta de comunicação e pelo fortalecimento de laços sociais durante o isolamento. Porém, é preciso ficar atento ao uso das mídias virtuais com conteúdo sobre o comportamento de autolesão e suicida.

As redes de Facebook, Instagram, os grupos de WhatsApp e outras mídias digitais, podem ser positivas ou negativas, ou seja, podem ajudar a construção de vínculos, o compartilhamento de experiências e o apoio, quanto podem contribuir para comportamentos de autolesão.

Na pessoa idosa, os índices de suicídio têm aumentado, com atenção maior a população idosa. Dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2018, apontam para a alta taxa de suicídio entre aqueles com mais de 70 anos.

No contexto da pandemia alguns idosos podem expressar dificuldades ao vivenciar situações de desamparo frente às situações de instabilidade dos vínculos afetivos, econômicos e/ ou políticos, gerando angústia, tristeza profunda e solidão. Para aqueles que residem sozinhos, a vulnerabilidade emocional pode ser maior, podendo evoluir

para estados depressivos ou mesmo depressão, com desfecho de tentativa de suicídio ou do suicídio propriamente dito.

Uma outra situação da pandemia que pode ser emocionalmente desafiadora para os idosos é o de lidar com o luto por perda ou distanciamento de seus entes queridos.

Assim, os idosos constituem um grupo sensível à solidão e ao isolamento, pois costumam depender de forte apoio social, especialmente em tempos difíceis. Além disso há o medo de contrair a doença e ser um fardo para a família.

Os fatores de proteção para os idosos, podem ser:

• O fortalecimento das redes e dos laços socioafetivos

• O acesso à tratamentos de saúde mental.

• O desenvolvimento de estratégias que permitam contrabalançar os sentimentos negativos e reenquadramento dos planos de vida.

• As conversas cotidianas orientando os idosos do cuidado que devem manter

• Reforço do autocuidado

É preciso, ficar alerta a possíveis mudanças de comportamento do idoso, tais como:

• Se o idoso ficar mais quieto, mais isolado, apresentando maior desinteresse pela família, ou não querer mais atender as ligações ou chamadas de vídeo;

• Se está se queixando de forma mais frequente de dores no corpo, falta de apetite, dificuldades para dormir ou falta de memória. Em algumas situações, queixas físicas, sobretudo se tiverem aumentado nesse período, podem ser sinais de depressão.

• Aos idosos que possuem qualquer problema cognitivo, sugere-se: orientação, principalmente em situações mais graves, e acompanhamento por cuidadores de confiança, uma vez que sintomas de irritabilidade, ansiedade, insônia ou mesmo quadros confusionais são mais frequentes em situações de quarentena.

• Preocupação com a morte e o morrer, sobretudo quando acompanhadas de frases como: “eu estaria melhor morto”.

• Observar a frequência de declarações que possam indicar que o idoso não se importa mais com a vida ou “não quer ser um peso para ninguém”.

No caso de crianças, é preciso ter clareza que ele/ela compreenda o que é a morte. Essa compreensão costuma acontecer entre sete e nove anos de idade.

Em geral, em situações suicidas não se deve duvidar, desqualificar ou minimizar o relato de desejo de morte e apontar culpados ou causas.

É muito importante ouvir a pessoa e sua família, sem julgamentos, e considerar o ato como um sinal de alerta, especialmente para evitar um novo episódio suicida; buscar ajuda especializada, seja acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico e pacientes em tratamento psiquiátrico, devem manter as medicações.

Em caso de perigo imediato de comportamento suicida ou de automutilação, acionar o SAMU 192 e/ou buscar atendimento de emergência em UPA, pronto socorro ou hospital.

Recomenda-se não deixar a pessoa sozinha. 

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