Construindo uma relação amorosa harmoniosa

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não tiramos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.” Carlos Drumond de Andrade

No meu consultório um tema muito recorrente é o das relações amorosas. Os solteiros ou solteiras, buscam a mesma coisa, uma relação estável, mas não conseguem se fixar neste tipo de relação e no menor problema, brigam e se separam. Já os casados, ou que vivem juntos com seus parceiros ou parceiras, embora estejam em uma relação estável, sentem-se insatisfeitos, infelizes e incapazes de fazer o outro feliz, ao mesmo tempo o medo os impede de mudar. Paradoxos e ambiguidades permeiam as relações amorosas.

Assim, escolhi este tema porque esta semana comemoramos no Brasil, o dia dos namorados, uma oportunidade para repensar nossas relações.

Quantas vezes você já se perguntou: Será que eu realmente quero estar junto desta pessoa? Será que o que sinto é amor? Será que vou encontrar alguém para compartilhar minha vida, meus sonhos? Porque a paixão acabou? Porque o outro mudou? Será que é melhor eu estar sozinha(o)?

São tantas dúvidas, tantos dilemas, tantas interrogações, tantas incertezas... Mas como ter certeza do que se sente?

Bem, vou trazer algumas questões para reflexão. A primeira delas é a de que que não temos como ter certeza de nada, apenas do que sentimos, e para isto, temos que ter contato com nossos sentimentos e nos conhecermos, pois os pensamentos racionalizam, justificam, dão razão, mas os sentimentos são verdadeiros. No mundo atual, muitas vezes perdemos o contato com o nosso sentir, pois há um chamamento pela razão e pelo que pensamos. A meditação, a terapia, são ótimos processos para se conhecer e entrar em contato com os sentimentos.

A segunda reflexão, diz respeito ao contexto em que vivemos. Hoje o amor liquido permeia as relações atuais. Mas, como chegamos até ele? Será que todas as relações amorosas são efêmeras?

Os ideais amorosos de relacionamento podem ser compreendidos como construções sócio históricas. O amor assim, não emana da vida psíquica, independente da realidade exterior, mas sofre influência de seu meio, família, grupos sociais e paradigmas de cada época.

Nosso mundo atual é permeado por uma ambiguidade entre o individual e o conjugal. Chegamos até aqui com apoio dos paradigmas que foram se formando ao longo da história.

Até o sec. XVIII, o homem não tinha escolhas individuais, o todo social é que determinava grande parte de seu comportamento, incluindo sua vida conjugal, estando presentes na sociedade tradicional, valores como tradição, ordem, hierarquia, etc., não havendo espaços para escolhas individuais. O coletivo e o conjugal eram o foco da sociedade.

O individualismo surge nas sociedades modernas, onde se inicia a discussão da liberdade e da igualdade, pela libertação dos laços políticos, agrários e religiosos. Lutava-se para revelar a natureza nobre e boa do ser humano cuja sociedade tinha oprimido e deformado. O casamento passou a ser contestado como um mero arranjo financeiro e passou a ser valorizado como um encontro profundo de almas. Era o amor romântico que surgia. Esta segunda grande fase com ênfase no individualismo acontece a partir do séc. XIX, por influência do Romantismo, onde se buscava a valorização e a singularidade de cada ser humano, já que estavam agora libertos dos laços tradicionais. Neste período, a ênfase era pela ordem, a razão e a tentativa de conciliar as necessidades individuais e as exigências da Sociedade. O relacionamento amoroso já não se dava por decisões familiares, mas sim pela livre escolha dos parceiros, baseada no compartilhamento do amor e desejo sexual. Nessa sociedade Moderna, o homem era concebido como sendo racional, pensante e consciente, com uma identidade fixa, estável e coerente.

Avançamos e chegamos na sociedade pós-moderna (a partir da década de 60 – marcado pelo movimento feminista, movimentos juvenis contra culturais, das lutas pelos direitos civis e dos movimentos revolucionários). O ideal amoroso passa a valorizar os desejos, afetos, sonhos e a singularidade, com uma tentativa de acabar com a influência de normas externas ao par amoroso. Com o amor romântico foi inaugurada a interdependência entre sexualidade e amor, sendo o componente sexual essencial para a relação amorosa.

Entre estas sociedades, contudo, há rupturas e continuidades, gerando paradoxos intensos.

Na sociedade pós-moderna, o indivíduo continua sendo o foco e centro, podendo se perder nos interesses individuais em contrapartida ao bem-estar coletivo, ao mesmo tempo o homem busca sensações de prazer. Cada um estaria voltado para a busca de sensações prazerosas a despeito da organização coletiva. A responsabilidade é consigo mesmo, com seu bem-estar, com sua qualidade de vida. A liberdade individual, entendida como viver como bem quiser e ser livre para escolher, é supervalorizada e o indivíduo é responsabilizado pelo seu próprio bem-estar, pela construção de seu projeto de vida, pela satisfação de suas necessidades, pelo planejamento de sua vida. Esta visão individualista ajuda o indivíduo em sua busca, mas requer esforço que nem todos estão dispostos a fazer.

Assim, a sociedade pós-moderna, também é individualista e tem seus valores baseados na liberdade e responsabilidade individuais, se caracteriza como a era da cultura do narcisismo, que se define por uma sociedade formada por indivíduos extremamente preocupados consigo mesmo. Esta intensa auto absorção estimula a busca do "crescimento" pessoal, pelo culto da "expansão" da consciência, pelo monitoramento frequente da saúde. No entanto, ao mesmo tempo, ocorre um processo de repúdio ao passado, as tradições, e em dificuldade em se determinar o que acontecerá no futuro. Na pós-modernidade, faz sentido viver somente para o momento, fixar os olhos no próprio desempenho particular e neste sistema social pautado pela produção e consumo em massa, o indivíduo é minado em sua autoconfiança e iniciativa pela posição de expectador que se coloca. Para fomentar o consumo, esta sociedade enfatiza o que falta no indivíduo, gerando uma crescente insatisfação do indivíduo com a identidade que construiu.

A sociedade que percebe o indivíduo como centro e referência de unidade autônoma que enfatiza a liberdade, ao mesmo tempo enfatiza o que falta neste indivíduo. Esta perspectiva pós-moderna, caracterizada pelo individualismo, paradoxo e ambiguidade, pauta os relacionamentos amorosos atuais e nossa sociedade atual convive entre o amor líquido, que dissocia prazer, de compromisso, que procura aproveitar os prazeres de um relacionamento evitando os momentos mais penosos e difíceis, que transpõe as relações de consumo para as relações amorosas, onde o outro é tratado como um objeto de consumo e julgado pelo volume de prazer que ele oferece e pelo amor romântico, recheado de desejos, afetos e sonhos, sexualidade e amor, que perdura até os dias atuais.

Eis a ambiguidade do homem atual, ao mesmo tempo em que acredita que o enraizamento é opressor ele busca uma estabilidade amorosa e afetiva. Ao mesmo tempo em que deseja se ancorar numa relação amorosa durável, sente-se numa prisão na rotina do relacionamento.

Os pós-modernos vivem as ambiguidades de seu tempo, desejam ter segurança, estabilidade no presente, mas, pretendem deixar o futuro em aberto, de tal forma que o vínculo semelhante a um contrato, pode ser quebrado a qualquer momento, quando qualquer um dos parceiros assim decidir. Por outro lado, a ideia de fidelidade é cada vez menos praticada pelos parceiros, mas ainda permanece como um ideal. Não desejam permanecer somente com um único parceiro, porque sentem que poderiam estar perdendo outras oportunidades, mas valorizam ainda a fidelidade como um ideal.

Vive-se a complexidade e os paradoxos dos tempos atuais. Vive-se mapas e crenças internalizadas de diversos momentos da sociedade, pois se convive ao mesmo tempo com valores e formas tradicionais, modernas e pós-modernas, formas diferentes de se enxergar, praticar e ter expectativas de relacionamento amoroso, desde o amor liquido até o amor romântico.

Mas, o que fazer diante desta realidade?

O primeiro passo, é entender que o relacionamento amoroso é influenciado pelos mapas de cada época, o segundo é identificar qual ou quais mapas a(o) influencia(m), e buscar o que de fato pauta seus sentimentos, o terceiro é tentar novas soluções existenciais entre estes dois grandes extremos, do amor liquido ao amor romântico

Uma alternativa é buscar o relacionamento harmonioso, duradouro, mas que não escraviza, que ajude na construção de ideais e de identidades, que forneça estabilidade, sem destruir a individualidade, que construa relações de intimidade, sem posse, mas com compromisso, um com o outro.

É manter um relacionamento amoroso consciente, que tem por base a vivência interior, o amor incondicional e espontâneo. É preciso acalmar a mente cheia de razões e abrir o coração. É preciso nos conectar com o outro em diversos níveis.

O primeiro nível de conexão é o físico, o do prazer do corpo, onde o outro é praticamente inexistente, ele existe apenas para satisfazer o prazer. Este nível se relaciona a sobrevivência, e sua busca é estimulada pela solidão e desejo. Relaciona-se ao amor liquido. Ao nos tornarmos conscientes, abrimo-nos para outros níveis.

Um segundo nível, diz respeito ao nível mental/emocional, estimulado pela necessidade de reforço da autoimagem, a pessoa busca uma troca, um refúgio na hora da tempestade, uma busca incessante de amar e ser amado, confundindo sentimentos e criando uma prisão emocional para os dois. Embora esta fase possa ajudar na construção de um verdadeiro relacionamento amoroso, ainda é recheado por isolamento e compromissos individuais. Neste nível os altos e baixos emocionais são frequentes. Neste nível, embora inicia-se a construção da relação eu e o outro e de limites, vive-se na ambiguidade do amor liquido e do amor romântico, onde o outro existe para me satisfazer. Este é o primeiro nível do Humano e para uma relação amorosa harmoniosa é preciso mais, é preciso avançar para outros níveis, se não nos perderemos nas expectativas, ideais e modelos de papéis.

O terceiro nível é o do coração, é o nível do verdadeiro laço, é neste nível que o amor romântico se transforma em harmônico. Neste nível a pessoa |vai além do apego aos atrativos físicos e emocionais, vive-se o estado do Ser. Assume-se o risco ao aceitar o compromisso dos corações envolvidos. A intuição pauta o relacionamento, e as mentes convergem para produzir um todo maior que a soma das partes. Descobrimos neste nível, a ternura, o perdão e a compaixão. É aqui que o relacionamento se instala solidamente no espírito, nos conduzindo ao próximo nível, que é o espiritual e a união de almas, seria a união com o Deus interior do outro. Neste nível, as pessoas que se amam, tem sonhos conjuntos, conexão psíquica a longa distância e comunhão empática.

Ao nos permitirmos abrir o coração e ampliarmos a visão de nós mesmos e do outro, a vida se amplia e damos espaço para o outro entrar e se instalar em nosso coração.

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