O que nos torna humanos

Os laços que cimentam a sociedade humana são muito mais complexos que os existentes entre outros animais. Mesmo comparado aos de nossos parentes mamíferos mais próximos, nossa capacidade social se destaca. Nossa espécie, o Homo sapiens, e uma entre mais de uma dúzia de gêneros de Homo, sendo os mais conhecidos, além de nós, os neandertalenses, o Home habilis e o Homo erectus, todos eles, claro, mortos há muito tempo – talvez por falta de determinadas habilidades sociais.

Muitas dessas espécies se envolveram em atividades semelhantes às nossas, com o uso de ferramentas, o domínio do fogo, o enterro dos mortos e rituais culturais, como pintar o próprio corpo, mas nenhuma vivia numa sociedade tão complexa quanto a nossa. Talentos específicos nós desenvolvemos, o que possibilitou a interação de forma eficaz com outros seres humanos. Um desses talentos é a linguagem, que além de facilitar as interações sociais, possibilita a transmissão do conhecimento pelo sociedade ao longo das gerações.

Golfinhos e macacos podem trocar sinais, mas os seres humanos têm capacidade de explicar a seus filhos coisas mais complexas. Um código moral também é importante. Nossos ancestrais primatas podem não ter tido necessidade de se preocupar com uma sociedade em crise por causa de fraudes em investimentos, mas em geral as pessoas que vivem juntas são melhores na relutância que demonstram para bater na cabeça dos outros com uma pedra. Talvez pareça que os seres humanos estão sempre em guerra, mas nossa resistência em matar é na verdade tão forte que uma pesquisa feita pelo Exército dos Estados Unidos durante a Segunda guerra mundial concluiu que 80% dos combatentes não conseguiam atirar no inimigo, mesmo quando atacado.

Os seres humanos também são capazes de gestos altruístas mais deliberados e abrangentes que outras espécies, e certas estruturas do nosso cérebro relacionadas ao processo de recompensa entram em ação quando participamos de atos de cooperação mútua. Até bebê de seis meses avaliam os outros baseados no comportamento social. Em uma experiência, alguns bebês observavam um “escalador” que consistia em um disco de madeira com grandes olhos na superfície. O escalador começava a subir uma rampa, tentava chegar ao topo, mas não conseguia. Passado algum tempo, às vezes, um “triângulo auxiliar” - com olhos semelhantes na superfície – vinha de baixo e ajudava o escalador com um empurrão. Outras vezes, um “quadrado daninho” se aproximava do alto da rampa e empurrava o escalador circular para baixo.

Os organizadores do experimento investigaram se os bebês, sem interferência ou envolvimento de um expectador, tomariam alguma atitude em relação aos quadrados daninhos. E foi o que aconteceu, a julgar pela tendência dos bebês de tentar pegar os triângulos auxiliares, e não os quadrados daninhos. Mais ainda, quando o experimento foi repetido com um expectador auxiliar ou neutro, e depois com um daninho ou neutro, os bebês preferiram os triângulos amigos ao bloco neutro, e preferiram o bloco neutro aos antipáticos quadrados. O comportamento dos bebês comprova que muito antes de conseguir verbalizar a atração ou o repúdio, nós temos um sentido de moralidade – somos atraídos pelos bons e repudiamos os não bons.

Outra característica que distingue os seres humanos de outras espécies é nosso desejo e nossa capacidade de entender o que outros da nossa espécie pensam e sentem. Essa capacidade é chamada de “teoria da mente”. Ela nos permite entender o comportamento passado de outras pessoas e prever os desdobramentos de sua atitude em circunstancias presentes ou futuras. Só os seres humanos têm uma organização social e relações que exigem muito da “teoria da mente” de cada um, e, embora os cientistas ainda debatam se alguns primatas usam a teoria da mente, caso usem, parece ser num nível bem rudimentar.

Nos homens, porém, uma simples teoria da mente se desenvolve nos primeiros anos de vida, e aos quatro anos de idade quase todas as crianças já são dotadas da capacidade de avaliar os processos mentais de outras pessoas. É isso que nos possibilita organizar grandes e sofisticados sistemas sociais, desde comunidades agrárias até grandes corporações. Quando essa característica é disfuncional, como no caso dos autistas, as pessoas podem ter dificuldade para viver em sociedade.

Fatima Felix CRP 02/14138

Mlodinow, Leonard.“O que nos torna humanos IN: Ciência e Espiritualidade: dois pensadores, duas visões de mundo/Deepak Chopra, Leonard Mlodinow; (Tradução de Claudio Carino). Rio de Janeiro; Sextante, 2012

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