Marco Aurélio Costa,  Rio de Janeiro

NOVAS INVESTIGAÇÕES CIENTÍFICAS SOBRE MEMÓRIAS TRAUMÁTICAS

Cientistas descobrem como

memórias traumáticas se escondem

Mecanismo faz eventos estressantes serem gravados no subconsciente

Algumas experiências estressantes, como abusos repetidos na infância, são tão fortes e traumáticas

que suas memórias se escondem como sombras no cérebro. A princípio, isso pode até parecer algo bom, já

que as lembranças dolorosas não são acessadas conscientemente, poupando o indivíduo de ter que reviver

a toda hora a dor emocional desses eventos. Mas as memórias suprimidas podem causar uma série de

problemas psicológicos graves, desde ansiedade e depressão a desordens de estresse pós ­traumático ou

dissociativas.

Há tempos os cientistas acreditam que um processo conhecido como aprendizagem dependente do

estado está por trás da formação dessas memórias inacessíveis pela mente consciente. Assim,

informações gravadas em um estado particular de humor, excitação ou induzido por drogas só seriam

recuperadas quando o cérebro fosse posto novamente sob o mesmo estado anímico.

Uma equipe de pesquisadores realizou um experimento com camundongos para testar esta hipótese,

revelando pela primeira vez o mecanismo como tal tipo de aprendizagem dependente do estado faz com

que memórias estressantes relacionadas ao medo sejam inacessíveis à mente consciente. A descoberta

abre caminho para a criação de novas maneiras de os terapeutas ajudarem pacientes com distúrbios

causados por memórias traumáticas que, de outra forma, seriam difíceis de acessar.

— Nossos achados mostram que há múltiplos caminhos para guardar memórias indutoras de medo, e

encontramos uma via importante para a formação destas lembranças — conta Jelena Radulovic,

professora da Universidade Northwestern, nos EUA, e líder do estudo, publicado ontem no periódico

científico “Nature Neuroscience”. — Isso pode levar ao desenvolvimento de novos tratamentos para

pacientes com desordens psiquiátricas para quem o acesso consciente a suas memórias traumáticas é

essencial em sua recuperação.

Segundo os pesquisadores, os caminhos para a formação de memórias dependem da ação de dois

aminoácidos no nosso cérebro, chamados glutamato e Gaba, que controlam se as células nervosas estão

ativas ou inibidas. Sob condições normais, esse sistema fica em equilíbrio, mas quando estamos vigilantes,

a concentração de glutamato aumenta. Isso faz com que ele seja o principal composto no

armazenamento de memórias facilmente lembradas. O Gaba, por sua vez, nos acalma e ajuda a dormir,

bloqueando o glutamato.

O CÉREBRO COMO UM RÁDIO AM E FM

Mas existem dois tipos de receptores de Gaba no cérebro. Um deles, conhecido como receptor sináptico

de Gaba, trabalha em conjunto com os de glutamato para equilibrar a resposta cerebral a eventos

externos, estressantes ou não. Já o outro tipo, os chamados receptores extrassinápticos de Gaba,

funciona de forma independente, ignorando o glutamato e focando em aspectos internos, ajustando as

ondas cerebrais, e estados mentais, de acordo com os níveis de diversos compostos químicos no cérebro,

como o próprio Gaba, hormônios sexuais e outras proteínas. Assim, são esses receptores extras sinápticos

que alteram nosso estado anímico, fazendo com que nos sintamos excitados, sonolentos, alertas, sedados

ou mesmo psicóticos. E o experimento mostrou que também são esses receptores, agindo a nível

molecular, que ajudam a codificar as memórias de eventos traumáticos e guarda­-las escondidas da mente

consciente.

— O cérebro funciona em diferentes estados, como um rádio que opera nas frequências AM e FM —

compara Jelena. — É como se ele normalmente estivesse sintonizado em FM para acessar as memórias,

mas precisa mudar para as estações AM para ter acesso às lembranças do subconsciente . Se um episódio

traumático acontece quando os receptores extra sinápticos de Gaba estão ativos, a memória desse evento

não pode ser acessada a não ser que esses receptores sejam novamente ativados, sintonizando o cérebro

nas estações AM.