Das mudancas de percurso

Há alguns anos, antes de entrar na faculdade de medicina, trabalhei em uma unidade de emergência em um hospital na cidade de Porto Alegre. Possuía um cargo administrativo, o que restringia bastante meu contato direto com os pacientes, mas permitia que houvesse grande contato com os familiares, que costumavam aguardar por horas os poucos minutos do horário de visitas do setor. Um dia, uma senhora em particular me chamou atenção, pois reparei que ao longo das manhãs, das tardes e das noites, ela permanecia sentada na sala de espera com seu tricot, levantando-se ao horário da visita e retornando para sua espera, repetindo tal rotina há alguns dias, sozinha. Em um dos meus horários de intervalo, sentei-me ao seu lado elogiando o belo trabalho que fazia, e iniciamos uma conversa, quando descobri que seu esposo estava internado devido intercorrências de um câncer de pulmão metastático (mesmadoença que anos antes causou a morte de meu avô), que os filhos não podiam visita-lo durante a semana e ela morava longe, por isso preferia permanecer na sala de espera, para não correr o risco de deixa-lo sozinho durante algum horário de visita. Após esta conversa, dona Maria* vinha com frequência ao balcão conversar, mostrava-me fotografias dos filhos e netos, e do esposo, seu José*, contava-me histórias passadas e também planos futuros para assim que o esposo se recuperasse. Em alguns dias seu José internou em outra unidade do hospital, mas dona Maria seguia vindo diariamente até a unidade de emergência conversar. Seu José estabilizou, recebendo alta hospitalar. Nesse dia, dona Maria veio até mim muito feliz, dizendo que estavam indo para casa, mas que ela voltaria assim que possível e me traria um presente. Comemorei com eles aquela vitória. Como disse anteriormente, eu ainda não cursava medicina, não sabia o prognóstico de uma doença como a do seu José, ainda mais no grau em que já se encontrava. Poucos dias depois, me encontrava em outro setor, quando recebo uma ligação de uma colega me chamando até a emergência, pois dona Maria estava me procurando. Imediatamente pensei que ela havia retornado como havia prometido – quando minha colega interrompe meus pensamentos e diz – seu José acabou de falecer. Naquele momento senti vontade de chorar. Pensei como a vida era injusta, ela tinha tantos planos, acabara de retornar para casa, para junto da família... eu não sabia como ir até ela, o que falar. Após alguns minutos, fui até onde ela estava, sentada junto com a filha na sala do serviço social, com sua sacolinha de tricot no colo. Ao entrar na sala, a abracei, disse que sentia muito – e eu realmente sentia. Então ela me disse, que a vida havia sido justa, ele ao menos tinha conseguido ir para casa se despedir e passar seus últimos momentos junto da família. E neste momento eu chorei. Então a filha me contou, que seu José passou muito mal à noite, o que os fez chamar o SAMU pela manhã para retornar ao hospital, tendo ele falecido assim que chegara ao hospital. Então dona Maria encostou em meu braço e me entregou um pacote. A filha sorriu enquanto dizia que a ambulância havia chegado, e dona Maria pediu um minuto parabuscar algo que não podia esquecer de levar ao hospital, que havia feito uma promessa. E esse era o presente que elahavia me prometido. Dona Maria, o maior presente que a senhora me deu, foi o amor. Esse amor que me levou a abandonar meu curso na faculdade de engenharia, de realizar mais um ano de cursinho e cursar medicina. O amor, que me faz diariamente sairda cama para ir ao hospital, buscar ajudar outras Marias e Josés. Obrigada dona Maria. Aonde quer que a senhora esteja. 

*os nomes foram modificados