O ambiente e o desenvolvimento psíquico - Coringa

Gosto muito das contribuições de Winnicott, que enriqueceram as concepções psicanalíticas sobre as bases do desenvolvimento emocional precoce. Assisti o filme Coringa e minha análise sobre a trajetória de vida deste personagem, reforçou este entendimento sobre o ambiente na estruturação psíquica do sujeito. Podemos compreender o ambiente de Winnicott como tudo o que é externo ao indivíduo, principalmente a mãe, que é o primeiro contato, a família, sociedade, etc...A base da saúde mental é estabelecida nos primórdios da infância pelo provimento de cuidados dispensados à criança por uma mãe suficientemente boa.  Por conseguinte, a falha da provisão básica inicial perturba os processos de maturação, barrando o crescimento emocional da criança e provavelmente do adulto que ela será. Nesse sentido, o que constitui a etiologia das psicoses, em particular da esquizofrenia, é uma falha do processo de maturação e integração; "Psicose é uma doença de deficiência do ambiente". Winnicott (1963c/1983) considera a esquizofrenia como resultado de certas falhas de construção da personalidade, decorrentes de um ambiente que não pôde ser suficientemente facilitador para ajudar o bebê a atingir várias metas, tais como a integração, a personalização e o desenvolvimento das relações objetais. O personagem Coringa é um adulto que tem múltiplas ameaças ao sentimento de existir, constantemente sente um temor do retorno a um estado de não-integração (levando ao aniquilamento e à ruptura da linha de continuidade do ser), o medo da perda de contato com a realidade e a desorientação, o pânico do desalojamento do próprio corpo (o despencar no vazio) e de um ambiente físico imprevisível. Neste aspecto de desenvolvimento emocional, penso na trajetória de um ambiente inicial falho (a mãe), falta de estrutura familiar, traumas infantis e coroando a continuidade; o retrato de uma sociedade caótica. A cidade fictícia do filme é marcada pela violência, desorganização e corrupção, as pessoas não são empáticas, o doente mental é desasistido. Podemos entender o filme para além de um ótima explicação de estruturação psíquica, mas como uma crítica sobre como uma sociedade enxerga as pessoas vulneráveis e o quanto isso pode ser sem dúvida, desestruturante para qualquer sujeito. A vida é difícil em si mesma e a tarefa de viver, de continuar vivo e amadurecer é uma batalha que sempre permanece.

Janice

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