Olhar sobre o dependente químico

Primeiramente, para atender os dependentes químicos na Abordagem Centrada na Pessoa deve se estabelecer o respeito ao acolhido que procura ajuda e tem como objetivo sair de uma vida com drogas. É fundamental que o terapeuta abandone qualquer julgamento para que o dependente químico estabeleça confiança no profissional. Outra coisa é ter consistência e congruência, ou seja, aplicar a terapia com frequência ao que destina-se. É preciso coerência da parte do terapeuta para que o atendido possa se expressar de forma clara dando embasamento ao tratamento terapêutico. Congruência pode ser definida como o grau de exatidão entre a comunicação/expressão e o que realmente ocorre conosco, relacionando-se, portanto, a uma tomada de consciência da experiência.

A partir do momento que o usuário é valorizado como ser humano ele vai acreditar em seu potencial para a mudança de vida. O usuário pode se perceber de forma diferente e iniciar seu processo da própria evolução acreditando que não será mais julgado, mas aceito em sua individualidade e condição de dependente.

No começo do tratamento o dependente tem dificuldade de se comunicar, pois ainda não tem total confiança no profissional, porém ao ver que está sendo ouvido, desde a primeira sessão, o usuário passa a comunicar-se e dividir com o terapeuta as experiências vividas. O interno passa a ver a realidade da presença do terapeuta e sua disponibilidade de estar ali para dar atendimento necessário.

A dependência química é observada pelos familiares como uma doença e acreditam que o indivíduo está naquela situação porque ele quer e que poderia sair dela por sua própria força de vontade. E assim, rotulam e acusam o usuário, colaborando para que se sinta uma pessoa menos capacitada, fraca e má. Essa experiência do sujeito de querer parar de usar a substância e não conseguir uma progressão satisfatória em tempo hábil, faz com que sua motivação e modo de encarar o tratamento seja prejudicada. É nesse estado de incongruência que o indivíduo chega até a Comunidade Terapêutica buscando suavização para sua dor.

A incongruência é definida como um estado (geralmente desassossegado) em que existe uma discrepância entre o eu, tal como é percebido, e a experiência presente no organismo total - tudo que é potencialmente disponível à consciência, que está ocorrendo no organismo em um dado momento (Wood, 1983, p. 48).

Durante o processo terapeuta, o usuário vai entendendo a fidelidade da terapia em si, a real presença do terapeuta, o compromisso de estar com ele, característica de uma relação que é rara para o dependente de drogas, que teve suas últimas convivências fundamentadas na desconfiança, por parte dos familiares e amigos, em coação de troca de favores por parte dos traficantes das drogas psicoativas. Portanto, a postura de congruência e a relação a terapia é vista como uma grande novidade para o paciente, que passa a percorrer associação de novas peculiaridades de si através dessa relação de segurança. O interno aprende, através desta relação, que se o terapeuta está ali de forma séria ele o paciente pode também estar.

A maioria da população acredita ser uma doença e o dependente químico está ali por vontade própria e poderia sair da situação sem um apoio de um profissional e tratamento necessário para sua dependência.

A abordagem centrada na pessoa dentro da Comunidade Terapêutica com dependentes químicos relaciona-se com o respeito pelo usuário enquanto cidadão e na confiança da sua recuperação. São pessoas que abandonaram, há muito tempo, o respeito e a afeição de quem convive a sua volta, que já foram conceituados e ignorados, pelos próprios familiares, já passaram por situações cruéis por conta da droga e, muitas vezes, se perguntam se ainda há perspectiva de transformar sua vida e viver de forma digna.