A Familia e Suas Heranças Ocultas

  “Somos todos uma mistura de nossos pais e mães. Eles estão nos nossos genes, no aprendizado pela convivência e pelas ausências, nos modelos reproduzidos e na partilha da história familiar”....

            Pode-se considerar que o grupo familiar está submetido às mesmas leis que regem os sistemas de rede. Assim como nos demais fenômenos biológicos, poderíamos dizer que do ponto de vista do padrão de organização a família é uma rede autogeradora ou autopoiética: produz seus próprios membros e desenvolve seus próprios códigos, ritos, regras e segredos. Do ponto de vista da estrutura, na Física, a família seria como uma estrutura dissipativa, isto é, um sistema aberto que está sempre distante do verdadeiro equilíbrio, mas que também é um sistema fechado quando o observamos sob a ótica do padrão de organização. Dificilmente alguém de fora do grupo pode determinar a organização dos papéis dentro da família (sistema fechado).

Do ponto de vista do processo, o sistema familiar é um sistema cognitivo. Por sistema cognitivo compreende-se um padrão específico de relações que resulta na autoconsciência, que na família podemos chamar consciência de clã ou ainda co-inconsciente familiar.

Freud descobriu o inconsciente, Jung formulou o conceito de inconsciente coletivo, Moreno criou o conceito de co-inconsciente e Hellinger descreve a consciência de clã. Todos têm em comum o não-local e o conteúdo secreto, o não-dito, o indizível.

O co-inconsciente familiar transgeracional ou consciência de clã se forma ao longo da linhagem evolutiva dos antepassados de cada família por meio de um processo que inclui seus relacionamentos, sua linguagem, sua cultura e sua história. Registra os eventos bons e maus, os débitos, os créditos, as injustiças e gera uma espécie de memória como se fosse um banco de dados. Esta memória parece ser fundamental para a existência da identidade da família e para a transmissão dos valores e regras de comportamento de uma geração para outra. As ações dos membros de uma família decorrem em parte desta memória ancestral. A consciência de clã responde pela irresistível necessidade que existe nos sistemas familiares de restaurar a ordem e de equilibrar a balança dos débitos e créditos, principalmente pela compensação de injustiças sofridas por seus membros. A força da consciência de clã advém dos poderosos vínculos consanguíneos que os unem e que têm precedência sobre os demais vínculos.

Este enfoque nos direciona para uma nova compreensão do nosso destino: temos discernimento e livre-arbítrio, nossa vida não está pré-determinada, porém não somos in-dependentes. Estamos todos interligados conforme o padrão de rede que rege o funcionamento dos sistemas vivos e que conecta seus membros em duas perspectivas:

Intergeracional/Horizontal: em que conteúdos emocionais, segredos, débitos e créditos, lealdades são compartilhados pelos membros das gerações que estão em inter-relação direta, em vida;

Transgeracional/Vertical: em que a herança emocional oculta da família, lealdade, segredos e fantasmas, perpassa várias gerações, de forma inconsciente: pais avós, bisavós.

LÊDA DE A. A. ANDRADE, A FAMILIA E SUAS HERANÇAS OCULTAS